domingo, 19 de maio de 2019

Curso Memórias de Auschwitz

Mais de 70 anos após Auschwitz, ainda nos sentimos desafiados a voltar a esse evento-limite para repensarmos as fronteiras de nossa condição humana. Mas como rememorar algo que escapa de nossa capacidade simbólica? O curso propõe-se, assim, a refletir sobre os limites da linguagem na tentativa de se narrar eventos que extrapolam o sentido mesmo do que é ser humano, debruçando-se sobre obras de três áreas distintas - a literatura, o cinema e a filosofia.

Profª: Milla Benicio (Doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ; professora adjunta
do IFRJ, campus Niterói)

PROGRAMAÇÃO

11 JUNHO | LITERATURA
"MAUS", ART SPIEGELMAN
Única HQ a ser vencedora de um Prêmio Pulitzer, MAUS reinventa, sob a forma de paródia, a possibilidade de se narrar o trauma e traz um dos relatos mais singulares já feitos sobre Auschwitz.

18 de JUNHO | CINEMA 
"NOITE E NEBLINA", ALAIN RESNAISO documentário, produzido apenas dez anos pós o fim da Segunda Guerra, traz registros de campos de concentração há pouco habitados por milhares de judeus. As imagens, aliadas à narração de um sobrevivente, são capazes de tornar palpável uma realidade que que não podemos imaginar por meio de estatísticas.

25 JUNHO | FILOSOFIA "O QUE RESTA DE AUSCHWITZ", GIORGIO AGAMBEN Trabalhando conceitos cruciais para a sua obra, como o de Homo Sacer, Agamben propõe uma reflexão sobre como narrar um evento que extrapola a dimensão humana, ainda que tal narração se dê a partir de testemunhos.

VALOR DO CURSO E FORMAS DE PAGAMENTO
O valor integral do curso é R$ 200,00, e de uma aula avulsa é R$ 100,00.O curso pode ser pago em dinheiro, cheque ou depósito bancário em contas do Banco do Brasil, Itaú ou Caixa Econômica Federal.

HORÁRIO E LOCAL
As aulas acontecerão das 18:30 h às 20:30 h.
Endereço: Av. Amaral Peixoto, 55, sobreloja - Cruzeiro do Sul Educacional

CONTATO

Email: millabenicio@yahoo.com.br
Whatsapp: (21)98878-3539

INSCRIÇÃO

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VÍDEO DE DIVULGAÇÃO DO CURSO:


sábado, 3 de novembro de 2018

Comentário sobre "Da internet a Gutemberg", de Umberto Eco (Parte 2)

O segundo aspecto do texto de Eco que me chamou a atenção foi aquele que se refere à força da imagem na tentativa de se generalizar opiniões como premissas universais. Ele utiliza dois ou três exemplos, mas vou me ater ao do cachorro, pois este vai ao âmago da minha hipótese.

O autor afirma que, se alguém tem como objetivo convencer os demais de que cães são perigosos, nada mais persuasivo do que a imagem de um cachorro raivoso mordendo uma pessoa. Como afirma Eco, um único caso nada prova, mas se o exemplo é chocante, ele consegue prevalecer sobre outros casos, forjando uma lei geral onde deveríamos enxergar pluralidade.

Escolhi o exemplo do cão, porque ele é violento, e, ao que me parece, a internet tem se tornado o lugar por excelência em que ocorre o uso do exemplo (especialmente os violentos) na construção de julgamentos pouco complexos sobre situações em que nos vemos implicados.

Segundo o irreverente filósofo Slavoj Žižek, nossa sociedade, em toda a sua hiper-realidade, é, de certa forma, irreal, sem substância, como se um imenso vazio subjazesse sob a superfície de choques.

Meu querido Walter Benjamin afirmava que a lógica industrial inaugurou uma nova relação com o tempo, fixada no presente, a que ele chamaria de "experiência do choque". Ele lembra que, de acordo com Freud, o choque é uma defesa do organismo quando sobre-estimulado, algo como um automatismo. Assim, os choques promovidos pelas impressões isoladas levam a consciência a estar sempre alerta em relação aos estímulos, embora se mostrem menos capazes de pensar tais fatos a partir de uma outra perspectiva que não a da vivência imediata.

Como  observa Ẑiẑek, o horror perante um ato de violência explícito mobiliza inteiramente nossa atenção. E ainda, o sentimento de urgência que ele desperta é, em geral, uma indignação moral hipócrita e pouco reflexiva, levando a uma espécie de embotamento “anti-teórico”. Isso significa que, cada vez mais, acostumamo-nos (motivados por imagens e notícias perturbadoras, ainda que falsas), a formularmos julgamentos, sem, de fato, pensarmos mais profundamente a respeito.

Eu, particularmente, pergunto-me se discursos pautados no risco ou no medo não são utilizados para reforçar esteriótipos e manter relações de poder, por meio de políticas conservadoras. Acontecimentos, que recebem atenção especial no meio virtual devido à sua força de mobilização, talvez imponham uma ordem de prioridades sobre políticas públicas, calando, muitas vezes, o debate sobre alternativas menos drásticas e simplistas.





Comentário sobre "Da internet a Gutemberg", de Umberto Eco (parte 1)

Não à toa escolhi o texto do Umberto Eco para dar início às nossas conversas neste grupo de estudos. Ele contempla alguns aspectos que considero fundamentais para uma introdução ao tema da cultura digital. Decidi fragmentar meu comentário sobre o texto em partes diferentes, para aproveitar mais as impressões de vocês sobre cada um destes pontos. Então aqui vai a primeira parte. 

A discussão sobre uma nova tecnologia – neste caso, a internet – sempre suscita a expectativa (e a nostalgia) daquilo que está em vias de acabar em face do novo. (Impossível não lembrar de dois ensaios de Walter Benjamin: “O narrador” e “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”). O próprio Eco me parece, em alguns momentos, derrapar num tom melancólico, mas o grande ganho do texto está (na minha opinião) quando o autor, por outro lado, é capaz de deslocar a atenção do "isto-vai-matar-aquilo" para pensar em como tirar o maior potencial de qualquer mídia com a qual lidemos. Interessa-me, em particular, o debate sobre a leitura na web, e acredito que, de fato, o menos relevante nisso tudo é se vamos ler um pdf no ipad ou um livro físico. 

O que realmente me pergunto é se um meio como a internet (marcado pela fragmentariedade dos hiperlinks) modifica a habilidade de leitura dos indivíduos. E a primeira impressão que tenho é de que sim. Como professora, tenho observado, ao longo dos anos, uma grande dificuldade por parte dos alunos (especialmente dos mais jovens) em dedicar um longo tempo de estudo a um único texto. (Quando percebi, por exemplo, que meu comentário sobre este texto poderia se estender por muitas linhas, logo imaginei que algumas pessoas desistiriam dele.) 

É claro que o que trago aqui são impressões da minha própria experiência e já adianto que tenho o desejo de (neste grupo mesmo) ler mais sobre o assunto. Mas dois tópicos abordados por Eco são, para mim, muito relevantes para essa reflexão: 

1) A noção de hiperlink. A internet funciona como uma rede de informações, todas conectadas - uma espécie de convite recíproco à exploração. Por exemplo, se você está lendo um verbete na Wikipedia e uma das palavras aparece grifada em azul, significa que há mais informação sobre ela em uma outra página. É quase irresistível pular para este outro verbete, mesmo que isso interrompa (momentânea ou definitivamente) sua leitura. Esse tipo de leitura entrecortada tem-se tornado bastante comum, até mesmo para mim, que sou, em tese, uma leitora “old school”. 

2) Um uso da linguagem que não leva o pensamento a lugares mais complexos e abstratos. Sobre o exemplo do cachorro dado pelo autor dedicarei um tópico exclusivo adiante, porque tem muito pano para manga. Por ora, quero só ressaltar a afirmação de Eco de que a leitura na internet pode levar, algumas vezes, a generalizações rasas em detrimento de uma leitura crítica do mundo. 

Esses dois pontos são, no meu ponto de vista, muito importantes não apenas para se pensar quais mudanças têm-se operado em nossos processos de leitura, mas, principalmente, as oportunidades e desafios que essas mudanças nos trazem. Em suma: como tirar desses novos mecanismos de consumo da informação o aprimoramento do próprio processo de leitura, e não seu empobrecimento?

Da internet a Gutemberg (Umberto Eco)

Conferência apresentada por Umberto Eco na The Italian Academy for Advanced Studies in America (12 de novembro de 1996)

Segundo Platão (em Fedro), quando Hermes, suposto inventor da escrita, apresentou sua invenção ao Faraó Thamus, teve sua nova técnica elogiada, pois supunha permitir ao ser humano lembrar o que de outra forma poderia esquecer. No entanto, o Faraó não estava satisfeito. "Meu hábil Theut", disse, "a memória é o maior dom que precisa ser mantido vivo via treinamento contínuo. Com sua invenção as pessoas não mais serão obrigadas a treinar a memória. Lembrar-se-ão não por esforço interno, mas por virtude de um dispositivo externo."

Podemos entender a preocupação do Faraó. A escrita, como qualquer outro novo dispositivo tecnológico, poderia entorpecer o poder humano que substituiu e reforçou - como os carros que nos fazem menos hábeis em caminhar. A escrita era perigosa porque diminuía o poder da mente, oferecendo aos seres humanos uma alma petrificada, uma caricatura da mente, uma memória mineral. O texto de Platão é irônico, naturalmente. Platão apresentava por escrito esse seu argumento contra a escrita. Entretanto, ele pretendia que seu discurso fosse dito por Sócrates, que não escrevia (e como não publicou, morreu no decorrer de sua luta acadêmica).

Hoje, ninguém compartilha essas preocupações por duas razões muito simples. Antes de tudo, sabemos que os livros não são formas de substituir nosso pensamento; ao contrário, são máquinas que levam a pensar-se mais ainda. Só após a invenção da escrita é que foi possível escrever-se obras-primas sobre a memória espontânea como "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust.

Em segundo lugar, se em outros tempos as pessoas precisavam treinar suas memórias para lembrarem-se das coisas, após a invenção da escrita, tinham que as treinar para lembrarem-se de livros. Os livros desafiam e melhoram a memória; não a entorpecem.

No entanto, o Faraó estava revelando um medo eterno: o medo de que um novo feito tecnológico pudesse abolir ou destruir algo que considerássemos precioso, útil, algo que representasse para nós um valor em si profundamente espiritual. Foi como se o Faraó apontasse primeiro para a superfície escrita e, depois, para uma imagem ideal da memória humana, dizendo: "Isto matará aquilo".

Mais de um milênio depois, Victor Hugo, em "O Corcunda de Notre-Dame, "mostrou-nos um padre, Claude Frollo, apontando seu dedo primeiro para um livro e, então, para as torres e as imagens dessa amada catedral, dizendo "ceci tuera cela", isso matará aquilo. (O livro matará a catedral, alfabeto matará imagens). A estória de "O Corcunda de Notre-Dame" acontece no século XV, um pouco depois da invenção da imprensa. Antes disso, os manuscritos eram reservados a uma elite de pessoas letradas, mas as únicas formas de ensinar as massas sobre as estórias da Bíblia, como a vida de Cristo e dos Santos, os princípios morais, bem como os feitos da história nacional ou as mais elementares noções de geografia e ciências naturais (a natureza de pessoas desconhecidas e as virtudes de ervas ou rochas), eram supridos pelas imagens da catedral.

Uma catedral medieval era uma espécie de programa de TV imutável e permanente, pressupondo dizer às pessoas tudo o que fosse indispensável para seu cotidiano, bem como para sua salvação eterna. O livro poderia distrair as pessoas de seus mais importantes valores, encorajando informações desnecessárias, livre interpretação das Escrituras, curiosidade insana.

Nos anos 60, Marshall McLuhan escreveu sua "A Galáxia de Gutemberg", em que anunciava que a maneira linear de pensar instaurada pela invenção da imprensa estava para ser substituída por uma forma mais global de percepção e compreensão, por meio de imagens de TV ou outros tipos de dispositivos eletrônicos. Se não McLuhan, certamente vários de seus leitores apontaram o dedo para uma discoteca de Manhattan e para um livro, dizendo "isso matará aquilo".

A mídia precisava de um certo tempo para aceitar a ideia de que nossa civilização estava prestes a ser orientada por imagem - que poderia envolver um declínio da alfabetização. Hoje em dia, isso é palavra de ordem para qualquer revista semanal.

O que é curioso é que a mídia começou a celebrar o declínio da alfabetização e o poder esmagador da imagem justamente no momento em que, na cena mundial, surgia o computador. Certamente um computador é um instrumento por meio do qual pode-se produzir e editar imagens. Certamente instruções são supridas por meio de ícones; porém, é igualmente certo que o computador vem a ser, antes de tudo, um instrumento alfabético.

Em sua tela, rolam palavras, linhas e, para usar um computador, você deve ser capaz de escrever e ler. A nova geração é treinada para ler em uma velocidade incrível. Um professor universitário ultrapassado é, hoje, incapaz de ler uma tela de computador na mesma velocidade que um adolescente. Esses mesmos adolescentes, se por acaso desejarem programar o seu próprio computador, devem saber, ou aprender, procedimentos lógicos e algorítimos, e digitar palavras e números no teclado a grande velocidade. Nesse sentido pode-se dizer que o computador nos faz retornar à Galáxia de Gutemberg.

Pessoas que passam a noite implementando intermináveis conversações pela Internet estão, principalmente, trabalhando com palavras. Se a TV pode ser considerada como um tipo de janela ideal através da qual vê-se o mundo todo sob a forma de imagens, a tela do computador é um livro ideal no qual se lê sobre o mundo na forma de palavras e páginas. O computador clássico supria uma forma linear de comunicação escrita. A tela mostrava linhas escritas. Era como um livro de leitura rápida.

Hoje há hipertextos. Em um livro, tem-se que ler da esquerda para a direita (ou da direita para a esquerda, ou de cima para baixo, de acordo com diferentes culturas), em uma forma linear. Pode-se saltar páginas, pode-se - já alcançada a página 300 - voltar para checar ou reler algo na página 10 -, porém isso implica em trabalho, digo, trabalho físico. Ao contrário, um hipertexto é uma rede multidimensional, onde cada ponto ou nó pode, potencialmente, ligar-se a outro. Então chegamos ao final de nossa estória do isso-matará-aquilo. É mais ou menos declarado que, no futuro próximo, o cd-rom hipertextual substituirá livros.

Com um disquete hipertextual, supõe-se que os livros virão a ser obsoletos. Se você considerar que um hipertexto é, em geral, também multimídia, o disquete hipertextual completo substituirá, no futuro próximo, não apenas livros, mas também videocassetes e várias outras mídias. Agora devemos perguntar-nos se tal perspectiva é realista ou mera ficção científica - bem como se a distinção que esboçamos, entre a comunicação visual e a alfabética, livros e hipertextos, realmente é assim tão simples.

Deixe-me listar uma série de problemas e possíveis perspectivas para o nosso futuro. Mesmo após a invenção da imprensa, os livros nunca foram a única maneira de obter-se informação. Havia pinturas, imagens populares impressas, instrução oral, e por aí vai. Pode-se dizer que os livros foram, de algum jeito, o instrumento mais importante na transmissão de informação científica, incluindo notícias de eventos históricos. Neste sentido, foram o instrumento supremo usado nas escolas. Com a difusão de várias mídias de massas, do cinema à televisão, alguma coisa mudou.

Anos atrás, a única forma de aprender uma língua estrangeira (sem viajar) era estudá-la em livros. Agora, nossos filhos frequentemente conhecem outras línguas, ouvindo gravações, assistindo filmes no original, decifrando instruções em uma latinha de bebida. O mesmo acontece com informação geográfica. Em minha infância, adquiria informações sobre países exóticos, não lendo livros-texto, mas lendo romances de aventuras (Jules Verne, por exemplo).

Meus filhos, muito cedo, aprenderam mais que eu sobre os mesmos assuntos assistindo TV e filmes. Poder-se-ia aprender muito bem a história do Império Romano a partir de filmes, supondo-se que estes fossem historicamente corretos. O pecado de Howllyood não é opor seus filmes aos livros de Tácitus ou de Gibbon, mas antes o de ter imposto uma versão romanceada e sensacionalista sobre ambos, Tácitus e Gibbon.

Um bom programa educacional de TV (para não falar de um CD-ROM) pode explicar genética melhor que um livro. Hoje, o conceito de alfabetização compreende várias mídias. Uma boa política de alfabetização considera as possibilidades dessas mídias todas. A preocupação educacional deve ser estendida ao conjunto das mídias. Responsabilidades e tarefas devem ser cuidadosamente balanceadas. Se, para aprender línguas, fitas são melhores que livros, trate com cuidado suas fitas cassetes. Se uma apresentação de Chopin, com comentários em CD's, ajuda as pessoas a entender Chopin, não se aborreça se elas não comprarem cinco volumes da história da música. Mesmo se fosse verdade que hoje a comunicação visual esmaga a comunicação escrita, o problema não é opor a comunicação visual à escrita. O problema é como melhorar ambas.

Na Idade Média, a comunicação visual era, para as massas, mais importante que a escrita. Porém, a Catedral de Chartres não era culturalmente inferior ao Imago Mundi de Honorius de Autun. As catedrais eram as TVs daqueles tempos, e a diferença para as nossas TVs era que os diretores da TV medieval liam bons livros, tinham um pouco de imaginação, e trabalhavam para o benefício do público (ou, pelo menos, para o que eles entendiam ser o benefício do público). Os problemas reais estão em outro lugar. A comunicação visual tem de ser balanceada com a verbal e, principalmente, com a escrita por uma razão precisa.

Uma vez, um semiótico, Sol Worth, escreveu um artigo, "Imagem não pode dizer não sou". Eu posso dizer "Unicórnios não existem", mas se eu mostro a imagem de um unicórnio o unicórnio está lá. Além disso, eu vejo um unicórnio ou o unicórnio, isto é, se refere a um dado unicórnio ou a unicórnios, em geral? Esse problema não é imaterial como pode parecer, e várias páginas foram escritas por lógicos e semióticos sobre a diferença entre expressões tais como criança, a criança, essa criança, todas as crianças, a infância como ideia geral. Tais distinções não são fáceis de mostrar por meio de imagens.

Nelson Goodman, em seu "Linguagens da Arte", perguntava se uma figura representando uma mulher é a representação da mulher em geral, a descrição de uma dada mulher, o exemplo das características gerais de uma mulher, o equivalente da declaração de que há uma mulher me olhando. Pode-se dizer que um poster ou um livro ilustrado, a legenda ou outras formas de material escrito podem ajudar a entender o que a imagem significa.

Porém, eu quero lembrá-los sobre um dispositivo retórico chamado exemplo, com o qual Aristóteles gastou algumas páginas interessantes. Para convencer alguém sobre um dado assunto, o mais convincente é uma prova por indução. Na indução eu forneço vários casos e, então, eu infiro o que provavelmente dará margem a uma lei geral.

Suponha que eu queira demonstrar que cães são amigáveis e adoram seus donos. Eu forneço vários casos nos quais um cão provou ser amigo solícito e sugiro que deve haver uma lei geral pela qual todo animal pertencente à espécie canina é amigável. Suponha que eu queira persuadi-lo de que os cães são perigosos. Posso fazer isso fornecendo um exemplo: "Uma vez, um cão matou o seu dono ..." Como você facilmente entende, um único caso nada prova, mas se o exemplo é chocante, eu posso de repente sugerir que cães podem mesmo ser não amigáveis e, uma vez que você esteja convencido que pode ser assim, indevidamente extrapolo uma lei a partir de um único caso e concluir: "cães não são confiáveis". Usando a retórica do exemplo, eu desloquei o foco de um cão para todos os cães. Se você tem uma mente crítica, pode constatar que eu manipulei a expressão verbal (um cão era mau) para transformá-la em outra (todos os cães são maus), que não significa a mesma coisa. Mas, se o exemplo é visual ao invés de verbal, a reação crítica é muito mais difícil.

Se eu lhe mostro a imagem pungente de um cão mordendo seu dono, é muito difícil discriminar entre uma declaração particular e uma geral. É fácil tomar um cão como representativo de sua espécie. As imagens possuem, por assim dizer, um tipo de poder platônico: elas transformam ideias individuais em ideias gerais. Então, por educação e por comunicação puramente visual, é mais fácil implementar estratégias persuasivas que reduzam nosso poder crítico.

Se eu leio em um jornal que um dado homem disse "queremos o senhor X para presidente", estou ciente que era a opinião de um dado homem. Porém, se eu vejo na TV um homem dizendo entusiasticamente "queremos o sr. X para presidente", é mais fácil tomar a vontade daquele indivíduo como o exemplo da vontade geral. Às vezes, penso que as nossas sociedades, em breve, serão divididas (ou já o estão) em duas classes de cidadãos: os que veem TV, que recebem imagens pré-fabricadas e, portanto, definições pré-fabricadas do mundo, sem qualquer poder para escolher criticamente o tipo de informação que recebem, e os que sabem como trabalhar com o computador, que serão capazes de escolher e elaborar informação.

Isso restabelecerá a divisão cultural que existia no tempo de Claude Frollo, entre aqueles que eram capazes de ler manuscritos e, portanto, trabalhar criticamente com assuntos religiosos, científicos ou filosóficos, e aqueles que eram educados apenas pelas imagens da catedral, escolhidas e produzidas por seus mestres, os poucos alfabetizados.

Há dois tipos de livros: aqueles para serem lidos e aqueles para serem consultados. Livros para ler (podendo ser romance, tratado filosófico, análise sociológica, e assim por diante), que usam a forma normal de leitura, constituem o que eu chamaria de história de detetive.Você começa na página 1, onde o autor lhe diz que um crime foi cometido. Segue todo o caminho da investigação até o final e descobre, então, que o culpado é o mordomo.

É o fim do livro e o fim de sua experiência de leitura. Observe que o mesmo acontece quando você lê, digamos, o "Discurso do Método", de Descartes. O autor queria que você abrisse o livro na primeira página, seguisse a série de questões propostas por ele, para ver como alcança certas conclusões finais. Certamente, uma pessoa letrada que já conheça o livro pode relê-lo saltando de uma página a outra, tentando isolar a ligação entre uma declaração do primeiro capítulo e uma do último ... Pode também decidir isolar, digamos, toda ocorrência da palavra Jerusalém no opus imenso de Tomás de Aquino e, então, saltar milhares de páginas de modo a focar sua atenção nas únicas passagens onde está contida a palavra Jerusalém ...

Mas estas são maneiras de se ler que o leigo poderia considerar como uma forma não natural. Depois há os livros para serem consultados, como manuais e enciclopédias. Algumas vezes os manuais devem ser lidos do começo para o fim; porém, quando se sabe o assunto o suficiente, pode-se consultá-lo escolhendo-se certos capítulos e passagens. Quando eu estava na escola secundária, tinha que ler inteiramente, de forma linear, meu manual de matemática; hoje, se eu preciso de uma definição de logaritmo, eu apenas o consulto. Eu o mantenho na prateleira, não para o ler e reler, mas para consultá-lo uma vez em dez anos, encontrando o item que desejar. As enciclopédias são concebidas de sorte a serem sempre consultadas e nunca para serem lidas da primeira a última página. Geralmente pega-se um dado volume de uma enciclopédia para saber-se, ou lembrar-se, quando Napoleão morreu ou qual é a fórmula do ácido sulfúrico.

Pessoas letradas usam enciclopédias de uma forma mais sofisticada. Por exemplo, se desejo saber se é possível ou não que Napoleão tenha se encontrado com Kant, pegarei o volume K e o volume N de minha enciclopédia: descobri que Napoleão nasceu em 1769 e morreu em 1821; Kant nasceu em 1724 e morreu em 1804, quando Napoleão já era imperador. Não é impossível que tenham se encontrado. Tenho, provavelmente, que consultar a biografia de Kant, ou de Napoleão - mas, em uma curta biografia de Napoleão, que se encontrou com tantas pessoas em sua vida, um possível encontro com Kant pode ser desconsiderado, enquanto que, em biografia de Kant, tal encontro seria lembrado. Em suma, devo folhear vários livros nas estantes de minha biblioteca, tomar notas para comparar dados coletados, e assim por diante. Enfim, custará um penoso trabalho físico. Em um hipertexto, em vez disso, posso navegar pela enciclopédia inteira. Posso ligar um evento registrado no começo com uma série de eventos similares ao longo do texto, comparar o começo com o final, perguntar pela lista de todas as palavras começando por A, perguntar por todos os casos nos quais o nome de Napoleão está vinculado com o de Kant, comparar as datas de seus nascimentos e mortes - em suma, posso realizar minhas tarefas em segundos ou minutos.

Hipertextos tornarão obsoletos enciclopédias e manuais. Em alguns CD-ROMs (provavelmente logo em um único) é possível armazenar mais informação que na Enciclopédia Britânica toda, com a vantagem de permitir referências cruzadas e recuperação não linear de informações. O conjunto CD mais o computador ocupará um quinto do espaço ocupado pela enciclopédia. Esta não pode ser transportada como o pode o CD-ROM, a enciclopédia não pode ser atualizada facilmente. As estantes hoje ocupadas, em minha casa bem como em bibliotecas públicas, por metros e metros de enciclopédia poderiam ser eliminadas em um futuro próximo, e não haverá razão para lamentos sobre o seu desaparecimento. Pode um disco hipertextual substituir os livros de leitura?

Essa questão esconde, de fato, dois problemas distintos e poderia ser colocada como duas questões diferentes:

(I) Primeiro, uma questão prática: pode algum suporte eletrônico substituir os livros para ler?

(II) Segundo, uma questão teórica e estética: pode um CD-ROM hipertextual e multimídia transformar a natureza de um livro para ler, tal como um romance ou uma coleção de poemas?

Antes, deixe-me responder a primeira questão. Livros continuarão indispensáveis, não só para a literatura, mas em qualquer circunstância em que se precisa ler cuidadosamente, não apenas receber informação mas também especular e refletir. Ler uma tela não é o mesmo que ler um livro. Imagine o processo de aprender um novo programa de computador. Em geral, o programa mostra na tela todas as instruções que se precisa. O usuário que quer aprender, no entanto, ou imprime as instruções e as lê na forma de livro ou compra o manual impresso (fico indignado com o fato de, atualmente, todos os Helps computacionais claramente serem escritos por irresponsáveis e idiotas tautológicos, enquanto que os manuais comerciais o são por pessoas inteligentes).

É possível imaginar um programa visual que explique muito bem como imprimir e encadernar um livro, mas para obter-se instruções de como escrever (ou como usar) um programa de computador, precisamos de um manual impresso. Depois de não mais que 12 horas na frente do computador, meus olhos mais se parecem com duas bolas de tênis e sinto a necessidade de sentar-me confortavelmente em uma poltrona e ler um jornal, ou um bom poema. Penso nos computadores difundindo uma nova forma de literatura, mas sendo incapazes de satisfazer as necessidades intelectuais que estimulam. Em minhas horas de otimismo sonho com uma geração de computadores em que, compelido a ler a tela, consiga me familiarizar com a leitura, mas em certos momentos sinto-me insatisfeito e procuro uma forma de leitura mais relaxada e confiável.

Durante um simpósio sobre o futuro dos livros na Universidade de San Marino (os anais do simpósio foram agora publicados pela Brepols), Regis Debray observou que o fato de a civilização hebraica ter sido uma civilização baseada em um livro não é independente do fato de ela ser nômade. Penso ser esta observação importante. Os egípcios poderiam esculpir seus registros em obelisco de pedra, Moisés não. Se você quer cruzar o Mar Vermelho, um papiro é o instrumento mais prático sob a luz do bom senso. A propósito, outra civilização, a árabe, foi baseada em um livro, e privilegiou a escrita sobre a imagem.

Mas os livros também possuem uma vantagem sobre os computadores. Ainda que o papel moderno dure apenas 70 anos, ou algo assim, dura mais que suportes magnéticos. Além disso, não sofrem com falta de energia e blecaute. Até agora os livros ainda representam a maneira mais econômica, flexível e limpa de transportar informação em um custo muito baixo.

A comunicação por computadores viaja na sua dianteira, os livros viajam com você e na sua velocidade, porém se você naufraga em uma ilha deserta, um livro pode servi-lo, enquanto o seu computador não poderá ser ligado em nenhum lugar. Mesmo se tiver baterias solares, a sua leitura não será fácil se você estiver deitado em uma rede. Os livros são ainda a melhor companhia para um náufrago, ou para o Day After. Para efeitos acadêmicos, um livro pode ser transformado em um CD-ROM hipertextual. Uma acadêmico pode querer saber quantas vezes a palavra bom aparece em "O Paraiso Perdido".

Entretanto, há hoje novos poemas hipertextuais nos quais até um livro para ler, ou um poema, pode ser transformado em um hipertexto. Neste ponto estamos nos deslocando para duas questões, pois o problema não é mais prático: refere-se à natureza do processo de leitura. Concebida como hipertexto, uma história de detetive pode ser estruturada de uma forma aberta, tal que seus leitores possam selecionar um caminho de leitura, isto é, construir sua própria estória - decidir que o culpado pode e deve ser o detetive, ao invés do mordomo.

Tal ideia não é nova. Antes da invenção do computador, os poetas e narradores sonharam com textos abertos, em que os leitores poderiam infinitamente reescrevê-los em diferentes formas. Essa era a ideia de "O Livro", exaltado por Mallarmé; Joyce imaginou seu Finnegans Wake como um texto que poderia ser lido por um leitor ideal acometido por uma insônia ideal.

Nos anos 60, Max Saporta escreveu e publicou um romance cujas páginas poderiam ser desordenadas, dando origem a diferentes estórias. Nanni Balestrini forneceu uma lista de versos desconexos a um computador para que os juntasse de formas diferentes para compor diferentes poemas. Raymond Queneau inventou um algorítmo combinatorial cuja virtude era possibilitar compor, a partir de um conjunto finito de linhas, bilhões de poemas. Vários músicos contemporâneos produziram partituras que, por manipulação, podiam conduzir a diferentes espetáculos musicais.

Como você, provavelmente, já constatou, até aqui se trabalhou com dois diferentes problemas.

(I) Primeiro é a ideia de um texto fisicamente móvel. Tal texto poderia dar a impressão de absoluta liberdade por parte do leitor; mas esta é apenas uma impressão, uma ilusão de liberdade. O único maquinário que permite produzir-se infinitos textos já existe há milênios, e se chama alfabeto. Com um número reduzido de letras pode-se produzir, realmente, bilhões de textos, e isso é, exatamente, o que foi feito de Homero até os nossos dias. Um texto-estímulo que nos dê não letras, ou palavras, mas sequências pré-estabelecidas de palavras, ou de páginas, não nos dá a liberdade de inventar algo que queiramos. Apenas temos liberdade para mover, em um número finito de formas pré-estabelecidas, pedaços de texto. Mas eu, como leitor, tenho essa liberdade quando leio um romance policial tradicional. Ninguém me proíbe de imaginar um final diferente. Num romance onde dois amantes morrem eu, como leitor, posso ou chorar sobre sua sorte ou tentar imaginar um final diferente, no qual eles sobrevivem e vivem felizes para sempre. De certa forma eu, como leitor, me sinto mais livre com um texto fisicamente finito, pois posso meditar por anos, do que com um móvel com poucas manipulações permitidas.

(II) Essa possibilidade nos leva ao segundo problema, referente a um texto que é fisicamente finito e limitado, mas que permite ser interpretado de infinitas (ou, pelo menos, várias) formas. Isso tem sido o objetivo de todo poeta ou narrador. Mas um texto que suporta várias interpretações não é um texto que suporta qualquer interpretação. Penso que nos confrontamos com três ideias de hipertexto diferentes. Primeiro, deveríamos fazer uma distinção precisa entre sistemas e textos. Um sistema (por exemplo, um sistema linguístico) é o conjunto de possibilidades exibido por uma determinada linguagem natural. Todo item linguístico pode ser interpretado em termos de itens linguísticos ou semióticos, uma palavra por uma definição, um evento, por um exemplo, uma espécie natural por uma imagem, e assim por diante. O sistema é, talvez, finito, mas ilimitado. Segue como espiral ad infinitum.

Assim, certamente todos os livros concebíveis são compreendidos por e dentro de um bom dicionário e uma boa gramática. Se você é capaz de usar o Webster você pode escrever tanto "Paraiso Perdido" quanto Ulisses. Certamente, se concebido dessa forma, um hipertexto pode transformar todo leitor em um autor. Dado o mesmo sistema hipertextual para Shakespeare e para um estudante, eles tem a mesma chance de produzir "Romeu e Julieta".

Mas um texto não é um sistema linguístico ou enciclopédico. Um texto reduz as possibilidades infinitas ou indefinidas de um sistema para produzir um universo fechado. "Finnegans Wake" é, certamente, aberto a várias interpretações, mas é certo que nunca lhe ajudará na demonstração do Teorema de Fermat, ou na bibliografia completa de Wood Allen. Parece trivial, mas o erro radical de desconstrucionistas irresponsáveis era entender que podia fazer qualquer coisa que você quisesse com um texto. Isso é gritantemente falso. Um hipertexto textual é finito e limitado, embora aberto a inumeráveis e originais perguntas.

Hipertextos podem trabalhar muito bem com sistemas, já com textos, não. Sistemas são limitados mas infinitos. Textos são limitados e finitos, mesmo que permitam um grande número de interpretações (mas eles não justificam toda interpretação possível).

Há, no entanto, uma terceira possibilidade. Pode-se imaginar hipertextos ilimitados e infinitos. Todo usuário pode adicionar algo, e você pode implementar uma espécie de estórias sem fim, como jazz. Neste ponto a noção clássica de autoria certamente desaparece, e temos uma nova forma de implementar livre criatividade. Sendo autor de Open Work não posso senão saudar tal possibilidade. No entanto, há uma diferença entre implementar a atividade de produção de textos e a existência de textos produzidos.

Deveríamos ter uma nova cultura na qual haverá uma diferença entre produzir textos infinitos e interpretar textos precisos e finitos. Isso é o que acontece em nossa cultura atual, na qual avaliamos diferentemente uma interpretação gravada da Quinta de Beethoven e uma nova instância de uma sessão de New Orleans Jam.

 Estamos caminhando para uma sociedade mais liberada na qual a livre criatividade co-existirá com a interpretação textual. Gosto disso. Mas não deveremos dizer que substituímos uma coisa velha por outra nova. Temos as duas, graças a Deus. Assistir TV nada tem a ver com assistir um filme. Um dispositivo hipertextual que nos permita inventar novos textos nada tem a ver com nossa habilidade de interpretar textos pré-existentes.

Há ainda outra confusão entre e acerca de duas diferentes questões:

(a) os computadores tornarão os livros obsoletos? e (b) os computadores tornarão obsoletos o material escrito e impresso? Suponha que os computadores farão os livros desaparecerem. Isso não significa o desaparecimento do material impresso. O computador cria novos modos de produção e difusão de documentos impressos. Para reler um texto e corrigi-lo adequadamente, se não for uma carta, precisa-se imprimi-lo, relê-lo, então corrigi-lo no computador e reimprimi-lo. Não acho que se seja capaz de escrever-se um texto de centenas de páginas e corrigi-lo sem imprimi-lo pelo menos uma vez. Vimos que - se por acaso esperássemos que computadores, e especialmente processadores de texto, pudessem contribuir para preservação de árvores - isso seria apenas uma ilusão. Computadores encorajam a produção de material impresso.

Podemos imaginar uma cultura onde não haverá livros e, ainda assim, as pessoas transportem toneladas de folhas de papel. Isso será desastroso, levantando um novo problema para bibliotecas. As pessoas desejam comunicar-se. Em comunidades antigas o faziam oralmente; em sociedades mais complexas isso foi conseguido com a imprensa. A maioria dos livros expostos em livrarias poderia ser definida como Vanity Presses, mesmo sendo publicados pela imprensa universitária. Mas com a tecnologia da computação entramos em uma nova Samisdazt Era.

As pessoas podem comunicar-se diretamente, sem a intermediação de editoras. Muitas pessoas não querem publicar, mas simplesmente comunicar-se entre si. Hoje isso é conseguido através de E-mail ou pela Internet, o que resultará em grande vantagem para livros, civilização de livros e mercado de livros. Veja uma livraria. Há muitos livros. Eu recebo muitos livros semanalmente. Se a rede de computadores conseguir reduzir a quantidade de livros publicados, isso seria um grande aperfeiçoamento cultural.

 Uma das mais comuns objeções contra a pseudo-competência de computadores é que os jovens cada vez mais se acostumam a falar fórmulas criptografadas: dir, help, diskcopy, error 67, e assim por diante. Uma das fórmulas usadas em redes é cul8r. Isso ainda é competência literária? Sou um colecionador de obras raras e fico encantado quando leio títulos do século 17 com uma página e às vezes mais. Parecem os títulos de filmes de Lina Wertmuller. As introduções tinham várias páginas. Começavam com fórmulas polidas elaboradas louvando o destinatário ideal, em geral um Imperador ou um Papa, e continuavam por páginas e páginas explicando, em um estilo bem barroco, a intenção e as virtudes do texto a seguir.

Se os escritores Barrocos lessem nossos livros didáticos contemporâneos, ficariam horrorizados. As introduções têm apenas uma página, resumindo brevemente o principal assunto do livro, agradecendo o generoso financiamento Nacional ou Internacional, rapidamente explicando que o livro só foi possível pelo amor e compreensão de esposa, marido ou alguma criança, e agradecendo a uma secretária por ter pacientemente datilografado o manuscrito. Entendemos o conjunto de provações humanas e acadêmicas reveladas naquelas poucas linhas, centenas de noites gastas fazendo fotocópias, os inumeráveis hambúrgueres comidos às pressas ..

Permita-me adivinhar que no futuro teremos três linhas dizendo: "W/c, Smith, Rockfeller," (para ser lido como: eu agradeço à minha esposa, às minhas crianças; este livro foi pacientemente revisado pelo Prof. Smith, e foi tornado possível pela Fundação Rockfeller). Poderia ser tão eloquente quanto uma introdução Barroca. É um problema de retórica e de familiaridade com uma dada retórica. Penso que nos anos vindouros as mensagens de amor passionais serão enviadas na forma de pequenas instruções na linguagem Basic, sob a forma "if .. then", para se ter, como entrada, messagens como "Te amo, portanto não posso viver contigo" (Belo verso de Emily Dickinson). Além disso, o melhor da literatura inglesa foi listada -- ao que me lembre -- em alguma linguagem de programação: "2B OR/NOT 2B"

Há uma ideia curiosa segundo a qual quanto mais usamos uma linguagem verbal mais somos profundos e perceptivos. Mallarmé disse que é suficiente falar "une fleur" para evocar-se um universo de perfumes, formas e reflexões. Freqüentemente na poesia quanto menos palavras mais coisas. Três linhas de Pascal dizem mais que 300 palavras de um bom e maçante tratado sobre moral e metafísica. A busca por uma competência literária nova e sobrevivente não precisa ser a busca por uma quantidade pré-informática. Os inimigos dessa competência estão escondidos em outra parte. Até aqui tentei mostrar que a chegada de novos dispositivos tecnológicos não tornam, necessariamente, obsoletos os velhos.

Carros são mais rápidos que bicicletas, mas não as tornaram obsoletas e nenhum aperfeiçoamento tecnológico pode fazer uma bicicleta melhor do que era antes. A idéia de que uma nova tecnologia consegue abolir uma prévia é muito simplista. Após a invenção de Daguerre os pintores não se sentiam mais obrigados a servirem como artesães obrigados reproduzir a realidade tal como entendemos vê-la. Mas não significa que a invenção de Daguerre tenha apenas encorajado a pintura abstrata. Há toda uma tradição na pintura moderna que não existiria sem o modelo fotográfico, por exemplo o hiperrealismo.

A realidade é vista pelos olho do pintor através do olho fotográfico. Certamente, o advento do cinema ou de tiras em quadrinhos liberou a literatura de certas narrativas que, tradicionalmente, tinha que executar. Mas se há alguma coisa como literatura pós-moderna, existe justamente porque foi muito influenciada por tiras em quadrinho ou cinema. Pela mesma razão não preciso mais de um retrato grande pintado por um artista modesto e posso enviar à minha amada uma fotografia fiel, porém essa mudança na função social da pintura não a tornou obsoleta, exceto que os retratos hoje pintados não exercem as mesmas funções de retratar uma pessoa (que pode ser feito melhor e mais barato por fotografia), a não ser para celebrar importantes celebridades, de maneira que a compra e a exibição de tais retratos adquirem conotações aristocráticas.

 Isto significa que na história da cultura nunca ocorreu que alguma coisa tenha simplesmente destruído outra coisa. Alguma coisa mudou profundamente outra coisa. Eu citei McLuhan de acordo com o qual a Galáxia Visual substituiu a Galáxia de Gutemberg. Vimos que umas poucas décadas depois isso não era mais verdadeiro. McLuhan declarou que nós vivemos em uma nova Aldeia Global eletrônica. Nós, certamente, vivemos em uma nova comunidade eletrônica, que é global o suficiente, mas não é uma aldeia - se por aldeia entende-se um povoado onde as pessoas estão interagindo diretamente.

Os problemas reais de uma comunidade eletrônica são os seguintes:

(1) Solidão. O novo cidadão desta nova comunidade é livre para inventar novos textos, cancelar a noção tradicional de autoria, deletar divisões tradicionais entre autor e leitor, mas o risco é que - estando em contato com o mundo por meio de uma rede galática - sente-se sozinho....

(2) Excesso de informação e inabilidade para escolher e discriminar. Costumo dizer que certamente o NYT de domingo é o tipo de jornal onde você pode encontrar tudo o que dá para imprimir. Suas 500 centenas [N.T.: certamente um engano, 500 seria o correto] de páginas lhe dizem tudo o que você precisa saber sobre a semana que passou e as idéias para a próxima. No entanto, uma única semana não é suficiente para ler o NYT de domingo. Há uma diferença entre um jornal que diz tudo e que você não pode ler, e um jornal que nada diz, há uma diferença entre o NYT e o Pravda?

Apesar disso, o leitor do NYT pode ainda distinguir entre a crítica de livro, as páginas de programas de TV, o suplemento Real Estate, e assim por diante. O usuário de Internet não tem a mesma habilidade. Hoje somos incapazes de discriminar, pelo menos a princípio, entre uma fonte confiável e uma não confiável. Precisamos de uma nova forma de competência crítica, uma arte por enquanto desconhecida de seleção e dizimação de informação, em suma, um novo bom senso. Precisamos de um novo tipo de treinamento educacional.

Digamos que, nesta perspectiva, os livros ainda terão uma função superior. Do mesmo modo como precisamos de manual impresso para surfar na Internet, também precisamos de novos manuais impressos para cobrimos criticamente a World Wide Web.

Suponha que você esteja lendo "Guerra e Paz", de Tolstoi: você está desesperadamente desejoso que Natasha não aceite a corte daquele patife miserável que é Anatole; deseja desesperadamente que a pessoa maravilhosa do príncipe Andrei não morra, e que ele e Natasha fiquem juntos e vivam felizes para sempre. Se você tivesse uma versão em CD-ROM hipertextual e interativa de "Guerra e Paz", você poderia reescrever sua própria estória, conforme seus desejos, poderia inventar inumeráveis Guerra e Paz, onde Pierre Besuchov mataria Napoleão ou, conforme sua propensão, Napoleão eliminaria o General Kutusov.

 Meu Deus, com um livro você não pode. Você é obrigado a aceitar as leis do destino, e constatar que não pode mudar o destino. Um romance hipertextual e interativo nos permite praticar liberdade e criatividade, e espero que tal tipo de atividade inventiva seja praticada nas escolas do futuro. Mas "Guerra e Paz" escrita não nos confronta com possibilidades ilimitadas de Liberdade, mas com as leis severas da Necessidade. Para sermos pessoas livres, precisamos também aprender esta lição sobre Vida e Morte, e apenas os livros ainda nos presenteiam com esta sensatez.

domingo, 19 de março de 2017

Inimigo público



Sabe o ódio que as pessoas têm do PT ou do PSDB, do Bolsonaro ou do Jean Wyllys, dos paneleiros ou dos black blocks? Então, eu sinto um ódio destes pelo agronegócio. Para mim, não há pessoa, partido, grupo ou instituição mais danoso ao Brasil do que a bancada ruralista. É ela que, atravessando – sem trégua – todos os governos, constitui as oligarquias mais podres, defende os interesses mais escusos, sustenta os lobbies mais asquerosos.

Nossa economia, há muito, depende de um negócio pouco sustentável, em muitos sentidos. A pecuária, como já observara Viveiros de Castro, gasta (e sem onerar as empresas) um dos recursos mais valiosos que temos, que é a nossa água potável. Desperdiça-se um volume indecente de água na produção de carne: 15 mil litros de água por quilo produzido. Faz agora as contas. Como diria ele, somos “o maior exportador de água virtual do mundo”.

Essa mesma atividade degrada também o solo e as nascentes, oprime grupos indígenas e impede a produção familiar, da mesma maneira que o fazem as monoculturas e seus latifundiários, empurrando-nos ainda comida com uma taxa de agrotóxico proibida na maior parte do mundo.

Para além de todos esses problemas, o agronegócio mama frequentemente nas tetas do governo, o que me faz questionar sobre a sustentabilidade também financeira do setor. Em janeiro deste ano, já foram destinados 12 bilhões de reais como pré-custeio aos produtores rurais.

E olha que ainda nem entrei no mérito de que esta é uma das indústrias mais cruéis que existem, tanto em relação a homens como a animais. As técnicas de produção torturam desnecessariamente bilhões de bois, vacas, porcos e aves que sentem as mesmas emoções básicas que nós. Se você acha que o único dilema ético que existe em comer carne está na morte dos animais, é porque não faz ideia da vida que levam do nascimento ao abate. Curiosamente, os frigoríficos oferecerem a seus funcionários as piores condições de trabalho de todo o país. Coincidência? Acho que não.

O episódio da carne podre da Friboi é só a ponta do iceberg, em uma indústria que desconhece qualquer limite ético e não tem nenhuma reverência pela vida. Garanto a vocês: encontrar um pelo do Toni Ramos no bife é bem menos nojento do que a maioria das práticas que a nossa bancada ruralista vem perpetuando ao longo de toda a nossa história. Mas nós engolimos – o bife e as práticas –, com a ajuda de uma mídia que, nos intervalos comerciais, repete como um mantra: “Agro é pop, agro é tech, agro é tudo”.

sábado, 31 de outubro de 2015

O assédio nosso de cada dia

Caiu no ENEM, mas muita gente ainda não sabe que, como observaria Simone de Beauvoir, ser mulher em nossa sociedade carrega uma ampla carga de significados socialmente construídos – muitos deles massacrantes.

A hashtag #primeiroassedio encorajou milhares de mulheres a quebrarem o tabu e a exporem as pequenas ou grandes humilhações a que cotidianamente somos submetidas, da infância à velhice, pelo simples fato de pertencermos ao chamado sexo frágil.

Essa fragilidade, certamente não biológica, talvez ressoe nossa vulnerabilidade frente a tantas situações de assédio que não apenas aprendemos a aceitar, mas que também desaprendemos a reconhecer. E quando digo assédio, não me refiro apenas ao sentido restrito de atentado ao pudor, mas ao ato mesmo de constranger ou de perseguir alguém.

Eu e meu marido lecionamos na mesma universidade e não é incomum que cheguemos a dar aulas nas mesmas turmas. É natural, então, que, muitas vezes, conversando sobre nossas experiências diárias em sala de aula, troquemos impressões sobre o assunto. Nós dois adoramos nosso trabalho, o que não impede que, vez ou outra, sintamo-nos desgastados por conversas paralelas, atrasos, deboches ou descaso em relação à matéria.

No entanto, logo reparo que tais desgastes são incrivelmente mais recorrentes na minha rotina. Percebo a reação dele de surpresa quando digo que fulano, tão bonzinho, me mandou um email mal-criado. Ou quando reclamo que determinada turma é barulhenta, ou ainda, que foram desagradáveis as reações às notas da prova. Nada disso, com as mesmas pessoas e nas mesmas situações, aconteceu com ele.

A primeira conclusão lógica a que chego é de que ele é um profissional melhor do que eu. No mínimo, sua disciplina é mais importante ou sua postura em sala é mais convincente. E convivo com isso. Muito tempo depois, converso com uma amiga, professora na mesma instituição, e escuto queixas bastante similares às minhas. Confabulamos se o fato não se deve a sermos jovens, com idades próximas aos dos alunos. Uma outra amiga, esta um pouco mais velha, rebate que o mesmo acontece com ela. Mais uma professora se identifica com as situações que, perplexas, descobrimos serem comuns a todas nós.

Sim, o assédio sob a forma de conversa, negligência, confronto ou sarcasmo se dá porque somos mulheres.

É impressionante como os mecanismos de dominação funcionam de forma parecida: eles nos fazem sentir responsáveis por situações desagradáveis, que, no fundo, estão além do nosso controle e, se duvidar, estão além até mesmo do controle de quem as engendra. Pensando em casos mais extremos, sabe-se que a maioria das meninas abusadas silencia-se por se sentirem culpadas. Na minha história, eu morreria me achando incompetente não fosse a identificação com outras professoras quando discutimos o assunto.


“Rogeres” da vida ridicularizarão a iniciativa de muitas mulheres em compartilhar suas experiências de assédio. Eu entendo: é duro para qualquer ser humano, especialmente para os mais simplórios, compreender que sua conduta normal pode, na verdade, ser extremamente opressiva. Mas exatamente por isso, é preciso falar. Para que possamos nos reconhecer, seja na condição de agressores ou de vítimas. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A crise hídrica e os cabelos de Fátima



O conceito de sustentabilidade sempre me pareceu contraditório, por reunir dois termos que desconfio serem irreconciliáveis: crescimento econômico e preservação ambiental. Pior do que isso, a aposta num mundo sustentável pode esvaziar o potencial crítico do discurso ecológico, mantendo, por conciliação, relações de produção e consumo que são essencialmente predatórias para o meio ambiente.
Outro ponto é que a sustentabilidade aponta antes para iniciativas individuais (individuais no sentido de que são iniciativas isoladas) do que para projetos coletivos de gestão de nossos recursos naturais, e essa distorção ganha amplitude à medida que é reforçada insistentemente pelos discursos de dois dos nossos maiores representantes na esfera pública: os políticos e a mídia.
Um exemplo é a crise hídrica. Rodízio ou racionamento, o que importa a palavra? A questão fundamental é que o governo, seja ele federal ou estadual, faz-nos crer que a falta de água se deve ao seu consumo abusivo pelo indivíduo comum. Uma crença, ao que tudo indica, compartilhada pela mídia em geral. Hoje, no programa da Fátima Bernardes, a apresentadora contou, garbosa, que havia cortado o cabelo para que pudesse se demorar apenas cinco minutos no banho. Boa vontade à parte, é difícil de acreditar que o cabelo de Fátima faça assim tanta diferença em uma sociedade cujas engrenagens funcionam em escala industrial.
Tudo isso me fez lembrar (e já explico por que) uma entrevista que li há alguns anos com o grande antropólogo Viveiros de Castro, em que ele falava justamente da ignorância do brasileiro em relação ao consumo de água. Subscrevo, na íntegra, o trecho que me interessa:
“O Brasil tem a oportunidade única de ser um dos poucos lugares da Terra onde um novo modelo de sociedade e de civilização poderia se constituir. Somos um dos poucos países do mundo que tem recursos suficientes para inventar outra ideia e outra prática de desenvolvimento. Parece que aprendeu muito pouco com a história recente do mundo. Quando se exporta soja e gado, está se exportando o quê? O solo, a água do país. Para fazer 1 quilo de carne, são necessários 15 mil litros de água; para 1 quilo de soja, são necessários 1.800 litros. O Brasil é o maior exportador de ‘água virtual’ do mundo.” [1]
Juntando as pontas entre os cabelos de Fátima Bernardes e a fala de Viveiros de Castro, está o agronegócio, que, no Brasil, chega a consumir 70% de nossa água contra os meros 8% do consumo residencial. [2] É oportuno dizer que Fátima é garota-propaganda da JBS, uma das maiores empresas de processamento de carne do país, que reúne marcas como Seara, Friboi e Swift. Além das propagandas milionárias com Fátima, Roberto Carlos e Tony Ramos, a empresa investiu também quantias indecentes nas campanhas eleitorais de Lula e Dilma.
Nem preciso dizer que, por motivos ecológicos e políticos, Fátima faria melhor serviço deixando de estimular o consumo dos produtos da JBS do que cortando suas madeixas. Já o silêncio do governo sobre a relação entre o consumo de água e o agronegócio provavelmente vai além de seus conchavos eleitoreiros.
Acredito que ele se relacione, antes, com a resistência de nossos governantes àquela outra ideia e outra prática de desenvolvimento citada por Viveiros de Castro. Em um país que tem como único recurso de estabilidade o crescimento econômico, vincular a crise hídrica ao empresariado é praticamente assumir o risco de um colapso. Mas, silencioso, imagino que esse risco exista. Cresça o cabelo de Fátima ou não.

[1] VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Antropologia renovada. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/12/antropologia-renovada/. Acesso em: 26 jan. 2015.
[2] BRITO, Gabriel; SILVA JUNIOR, Paulo. Crise hídrica de São Paulo passa pelo agronegócio, desperdício e privatização da água. Disponível em: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10233:manchete101114&catid=72:imagens-rolantes. Acesso em: 26 jan. 2015.