O segundo aspecto do texto de Eco que me chamou a atenção foi aquele que se refere à força da imagem na tentativa de se generalizar opiniões como premissas universais. Ele utiliza dois ou três exemplos, mas vou me ater ao do cachorro, pois este vai ao âmago da minha hipótese.
O autor afirma que, se alguém tem como objetivo convencer os demais de que cães são perigosos, nada mais persuasivo do que a imagem de um cachorro raivoso mordendo uma pessoa. Como afirma Eco, um único caso nada prova, mas se o exemplo é chocante, ele consegue prevalecer sobre outros casos, forjando uma lei geral onde deveríamos enxergar pluralidade.
Escolhi o exemplo do cão, porque ele é violento, e, ao que me parece, a internet tem se tornado o lugar por excelência em que ocorre o uso do exemplo (especialmente os violentos) na construção de julgamentos pouco complexos sobre situações em que nos vemos implicados.
Segundo o irreverente filósofo Slavoj Žižek, nossa sociedade, em toda a sua hiper-realidade, é, de certa forma, irreal, sem substância, como se um imenso vazio subjazesse sob a superfície de choques.
Meu querido Walter Benjamin afirmava que a lógica industrial inaugurou uma nova relação com o tempo, fixada no presente, a que ele chamaria de "experiência do choque". Ele lembra que, de acordo com Freud, o choque é uma defesa do organismo quando sobre-estimulado, algo como um automatismo. Assim, os choques promovidos pelas impressões isoladas levam a consciência a estar sempre alerta em relação aos estímulos, embora se mostrem menos capazes de pensar tais fatos a partir de uma outra perspectiva que não a da vivência imediata.
Como observa Ẑiẑek, o horror perante um ato de violência explícito mobiliza inteiramente nossa atenção. E ainda, o sentimento de urgência que ele desperta é, em geral, uma indignação moral hipócrita e pouco reflexiva, levando a uma espécie de embotamento “anti-teórico”. Isso significa que, cada vez mais, acostumamo-nos (motivados por imagens e notícias perturbadoras, ainda que falsas), a formularmos julgamentos, sem, de fato, pensarmos mais profundamente a respeito.
Eu, particularmente, pergunto-me se discursos pautados no risco ou no medo não são utilizados para reforçar esteriótipos e manter relações de poder, por meio de políticas conservadoras. Acontecimentos, que recebem atenção especial no meio virtual devido à sua força de mobilização, talvez imponham uma ordem de prioridades sobre políticas públicas, calando, muitas vezes, o debate sobre alternativas menos drásticas e simplistas.
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