Não à toa escolhi o texto do Umberto Eco para dar início às nossas conversas neste grupo de estudos. Ele contempla alguns aspectos que considero fundamentais para uma introdução ao tema da cultura digital. Decidi fragmentar meu comentário sobre o texto em partes diferentes, para aproveitar mais as impressões de vocês sobre cada um destes pontos. Então aqui vai a primeira parte.
A discussão sobre uma nova tecnologia – neste caso, a internet – sempre suscita a expectativa (e a nostalgia) daquilo que está em vias de acabar em face do novo. (Impossível não lembrar de dois ensaios de Walter Benjamin: “O narrador” e “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”).
O próprio Eco me parece, em alguns momentos, derrapar num tom melancólico, mas o grande ganho do texto está (na minha opinião) quando o autor, por outro lado, é capaz de deslocar a atenção do "isto-vai-matar-aquilo" para pensar em como tirar o maior potencial de qualquer mídia com a qual lidemos.
Interessa-me, em particular, o debate sobre a leitura na web, e acredito que, de fato, o menos relevante nisso tudo é se vamos ler um pdf no ipad ou um livro físico.
O que realmente me pergunto é se um meio como a internet (marcado pela fragmentariedade dos hiperlinks) modifica a habilidade de leitura dos indivíduos. E a primeira impressão que tenho é de que sim.
Como professora, tenho observado, ao longo dos anos, uma grande dificuldade por parte dos alunos (especialmente dos mais jovens) em dedicar um longo tempo de estudo a um único texto.
(Quando percebi, por exemplo, que meu comentário sobre este texto poderia se estender por muitas linhas, logo imaginei que algumas pessoas desistiriam dele.)
É claro que o que trago aqui são impressões da minha própria experiência e já adianto que tenho o desejo de (neste grupo mesmo) ler mais sobre o assunto.
Mas dois tópicos abordados por Eco são, para mim, muito relevantes para essa reflexão:
1) A noção de hiperlink. A internet funciona como uma rede de informações, todas conectadas - uma espécie de convite recíproco à exploração. Por exemplo, se você está lendo um verbete na Wikipedia e uma das palavras aparece grifada em azul, significa que há mais informação sobre ela em uma outra página. É quase irresistível pular para este outro verbete, mesmo que isso interrompa (momentânea ou definitivamente) sua leitura. Esse tipo de leitura entrecortada tem-se tornado bastante comum, até mesmo para mim, que sou, em tese, uma leitora “old school”.
2) Um uso da linguagem que não leva o pensamento a lugares mais complexos e abstratos. Sobre o exemplo do cachorro dado pelo autor dedicarei um tópico exclusivo adiante, porque tem muito pano para manga. Por ora, quero só ressaltar a afirmação de Eco de que a leitura na internet pode levar, algumas vezes, a generalizações rasas em detrimento de uma leitura crítica do mundo.
Esses dois pontos são, no meu ponto de vista, muito importantes não apenas para se pensar quais mudanças têm-se operado em nossos processos de leitura, mas, principalmente, as oportunidades e desafios que essas mudanças nos trazem. Em suma: como tirar desses novos mecanismos de consumo da informação o aprimoramento do próprio processo de leitura, e não seu empobrecimento?
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