segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A crise hídrica e os cabelos de Fátima



O conceito de sustentabilidade sempre me pareceu contraditório, por reunir dois termos que desconfio serem irreconciliáveis: crescimento econômico e preservação ambiental. Pior do que isso, a aposta num mundo sustentável pode esvaziar o potencial crítico do discurso ecológico, mantendo, por conciliação, relações de produção e consumo que são essencialmente predatórias para o meio ambiente.
Outro ponto é que a sustentabilidade aponta antes para iniciativas individuais (individuais no sentido de que são iniciativas isoladas) do que para projetos coletivos de gestão de nossos recursos naturais, e essa distorção ganha amplitude à medida que é reforçada insistentemente pelos discursos de dois dos nossos maiores representantes na esfera pública: os políticos e a mídia.
Um exemplo é a crise hídrica. Rodízio ou racionamento, o que importa a palavra? A questão fundamental é que o governo, seja ele federal ou estadual, faz-nos crer que a falta de água se deve ao seu consumo abusivo pelo indivíduo comum. Uma crença, ao que tudo indica, compartilhada pela mídia em geral. Hoje, no programa da Fátima Bernardes, a apresentadora contou, garbosa, que havia cortado o cabelo para que pudesse se demorar apenas cinco minutos no banho. Boa vontade à parte, é difícil de acreditar que o cabelo de Fátima faça assim tanta diferença em uma sociedade cujas engrenagens funcionam em escala industrial.
Tudo isso me fez lembrar (e já explico por que) uma entrevista que li há alguns anos com o grande antropólogo Viveiros de Castro, em que ele falava justamente da ignorância do brasileiro em relação ao consumo de água. Subscrevo, na íntegra, o trecho que me interessa:
“O Brasil tem a oportunidade única de ser um dos poucos lugares da Terra onde um novo modelo de sociedade e de civilização poderia se constituir. Somos um dos poucos países do mundo que tem recursos suficientes para inventar outra ideia e outra prática de desenvolvimento. Parece que aprendeu muito pouco com a história recente do mundo. Quando se exporta soja e gado, está se exportando o quê? O solo, a água do país. Para fazer 1 quilo de carne, são necessários 15 mil litros de água; para 1 quilo de soja, são necessários 1.800 litros. O Brasil é o maior exportador de ‘água virtual’ do mundo.” [1]
Juntando as pontas entre os cabelos de Fátima Bernardes e a fala de Viveiros de Castro, está o agronegócio, que, no Brasil, chega a consumir 70% de nossa água contra os meros 8% do consumo residencial. [2] É oportuno dizer que Fátima é garota-propaganda da JBS, uma das maiores empresas de processamento de carne do país, que reúne marcas como Seara, Friboi e Swift. Além das propagandas milionárias com Fátima, Roberto Carlos e Tony Ramos, a empresa investiu também quantias indecentes nas campanhas eleitorais de Lula e Dilma.
Nem preciso dizer que, por motivos ecológicos e políticos, Fátima faria melhor serviço deixando de estimular o consumo dos produtos da JBS do que cortando suas madeixas. Já o silêncio do governo sobre a relação entre o consumo de água e o agronegócio provavelmente vai além de seus conchavos eleitoreiros.
Acredito que ele se relacione, antes, com a resistência de nossos governantes àquela outra ideia e outra prática de desenvolvimento citada por Viveiros de Castro. Em um país que tem como único recurso de estabilidade o crescimento econômico, vincular a crise hídrica ao empresariado é praticamente assumir o risco de um colapso. Mas, silencioso, imagino que esse risco exista. Cresça o cabelo de Fátima ou não.

[1] VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Antropologia renovada. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/12/antropologia-renovada/. Acesso em: 26 jan. 2015.
[2] BRITO, Gabriel; SILVA JUNIOR, Paulo. Crise hídrica de São Paulo passa pelo agronegócio, desperdício e privatização da água. Disponível em: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10233:manchete101114&catid=72:imagens-rolantes. Acesso em: 26 jan. 2015.

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