Desde setembro de 2001, o terrorismo passou a repercutir fortemente no imaginário
do mundo ocidental, apavorando-nos, por se tratar de um mecanismo
de pressão política que não passa, de forma alguma, pelo diálogo.
A disposição dos terroristas em abdicar da própria vida em nome de
uma causa maior tira-nos o poder de barganha e dá-nos aquela
sensação de xeque-mate no plano
político.
Como diria a psicanálise, a
violência representa o esgotamento do diálogo, a passagem do
simbólico ao ato. Ela se dá quando as palavras já não suficientes
para representar o que sentimos ou pensamos. E é claro que, como
filhos do Esclarecimento, nada pode nos parecer pior do que o recurso
à violência e a cessação do debate. Talvez seja por isso que a
luta por liberdade de expressão vem-se tornando cada dia mais
relevante em nossa sociedade.
O brutal assassinato dos cartunistas
do Charlie Hebdo condensou tal questão, quando milhares – e não
apenas franceses – foram às ruas e às redes bradar por essa
liberdade, com canetas em punho ou hashtags
“em riste”, dizendo “je suis charlie”.
Jornalistas não cansam de glorificar os homens que “morreram de pé
e não viveram de joelhos”. Já os humoristas conclamam para si a
espinhosa tarefa de subverter pelo riso. E, ao que parece, todos
concordam que a liberdade de expressão deva ser absoluta e
irrestrita.
A minha dúvida é se essa liberdade
sem limites pode, de fato, favorecer o diálogo, complexificar nossa
relação com o mundo, ou, pelo contrário, colocar em preto e branco
questões com matizes variados, afinal jogar com limites é uma das
mais belas e árduas tarefas da democracia, e definir em que medida a
liberdade de expressão pode comprometer outros direitos faz parte
deste jogo.
Em tempos de internet, essa é, para
mim, uma das reflexões mais fundamentais a serem empreendidas. Há
algum tempo, tem-me incomodado a busca por transparência total, esse
prazer em toda e qualquer denúncia, como se exercêssemos cidadania
pelo simples de fato de podermos nos expressar por meio de
smartphones. É que eu
sempre acho que a liberdade de expressão, nem por um
segundo, habilite-nos a empreender um diálogo. Até
porque, muitas vezes, a reivindicação por dizer o que se quer, não
raro, aponta antes para um desejo individualista da ordem do consumo
do que para uma empreitada coletiva da ordem da cidadania.
Na minha opinião, algumas das
charges do Charlie Hebdo representavam essa luta por apenas dizer,
como se só isso pudesse nos garantir um mundo melhor. Minha cabeça
dá voltas tentando entender qual debate político interessante
poderia ser suscitado ao se chamar o Corão de merda ou ao se fazer
troça com o profeta Maomé. Para além disso, é ingênuo acreditar
que qualquer meio de comunicação, por mais irreverente que seja,
não tenha sua expressão cerceada por limites que, muitas vezes, são
até mesmo autoimpostos.
Não acho, de modo algum, que os
cartunistas “tiveram o que mereceram”, não só porque ninguém
merece um fim destes, mas porque a violência é consequência de uma
limitação dos assassinos e não dos assassinados. A violência
suspende, ainda, o direito à dignidade, este sim, o único direito
que deve ser absoluto e irrestrito. Todavia, é preciso cautela para
não assumirmos um discurso que corre fácil pela mídia e vincula a condenação óbvia do terrorismo à liberdade total de expressão. É
preciso perguntarmo-no se sermos Charlie significa aceitarmos que ao humor todo poder de enunciação é concedido.
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