sábado, 10 de janeiro de 2015

Ser ou não ser Charlie, eis a questão


 Desde setembro de 2001, o terrorismo passou a repercutir fortemente no imaginário do mundo ocidental, apavorando-nos, por se tratar de um mecanismo de pressão política que não passa, de forma alguma, pelo diálogo. A disposição dos terroristas em abdicar da própria vida em nome de uma causa maior tira-nos o poder de barganha e dá-nos aquela sensação de xeque-mate no plano político.
Como diria a psicanálise, a violência representa o esgotamento do diálogo, a passagem do simbólico ao ato. Ela se dá quando as palavras já não suficientes para representar o que sentimos ou pensamos. E é claro que, como filhos do Esclarecimento, nada pode nos parecer pior do que o recurso à violência e a cessação do debate. Talvez seja por isso que a luta por liberdade de expressão vem-se tornando cada dia mais relevante em nossa sociedade.
O brutal assassinato dos cartunistas do Charlie Hebdo condensou tal questão, quando milhares – e não apenas franceses – foram às ruas e às redes bradar por essa liberdade, com canetas em punho ou hashtags “em riste”, dizendo “je suis charlie”. Jornalistas não cansam de glorificar os homens que “morreram de pé e não viveram de joelhos”. Já os humoristas conclamam para si a espinhosa tarefa de subverter pelo riso. E, ao que parece, todos concordam que a liberdade de expressão deva ser absoluta e irrestrita.
A minha dúvida é se essa liberdade sem limites pode, de fato, favorecer o diálogo, complexificar nossa relação com o mundo, ou, pelo contrário, colocar em preto e branco questões com matizes variados, afinal jogar com limites é uma das mais belas e árduas tarefas da democracia, e definir em que medida a liberdade de expressão pode comprometer outros direitos faz parte deste jogo.
Em tempos de internet, essa é, para mim, uma das reflexões mais fundamentais a serem empreendidas. Há algum tempo, tem-me incomodado a busca por transparência total, esse prazer em toda e qualquer denúncia, como se exercêssemos cidadania pelo simples de fato de podermos nos expressar por meio de smartphones. É que eu sempre acho que a liberdade de expressão, nem por um segundo, habilite-nos a empreender um diálogo. Até porque, muitas vezes, a reivindicação por dizer o que se quer, não raro, aponta antes para um desejo individualista da ordem do consumo do que para uma empreitada coletiva da ordem da cidadania.
Na minha opinião, algumas das charges do Charlie Hebdo representavam essa luta por apenas dizer, como se só isso pudesse nos garantir um mundo melhor. Minha cabeça dá voltas tentando entender qual debate político interessante poderia ser suscitado ao se chamar o Corão de merda ou ao se fazer troça com o profeta Maomé. Para além disso, é ingênuo acreditar que qualquer meio de comunicação, por mais irreverente que seja, não tenha sua expressão cerceada por limites que, muitas vezes, são até mesmo autoimpostos.
Não acho, de modo algum, que os cartunistas “tiveram o que mereceram”, não só porque ninguém merece um fim destes, mas porque a violência é consequência de uma limitação dos assassinos e não dos assassinados. A violência suspende, ainda, o direito à dignidade, este sim, o único direito que deve ser absoluto e irrestrito. Todavia, é preciso cautela para não assumirmos um discurso que corre fácil pela mídia e vincula a condenação óbvia do terrorismo à liberdade total de expressão. É preciso perguntarmo-no se sermos Charlie significa aceitarmos que ao humor todo poder de enunciação é concedido.

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