O conceito de
sustentabilidade sempre me pareceu contraditório, por reunir dois termos que
desconfio serem irreconciliáveis: crescimento econômico e preservação
ambiental. Pior do que isso, a aposta num mundo sustentável pode esvaziar o
potencial crítico do discurso ecológico, mantendo, por conciliação, relações de
produção e consumo que são essencialmente predatórias para o meio ambiente.
Outro ponto é
que a sustentabilidade aponta antes para iniciativas individuais (individuais
no sentido de que são iniciativas isoladas) do que para projetos coletivos de
gestão de nossos recursos naturais, e essa distorção ganha amplitude à medida
que é reforçada insistentemente pelos discursos de dois dos nossos maiores
representantes na esfera pública: os políticos e a mídia.
Um exemplo é a
crise hídrica. Rodízio ou racionamento, o que importa a palavra? A
questão fundamental é que o governo, seja ele federal ou estadual, faz-nos crer
que a falta de água se deve ao seu consumo abusivo pelo indivíduo comum. Uma
crença, ao que tudo indica, compartilhada pela mídia em geral. Hoje, no
programa da Fátima Bernardes, a apresentadora contou, garbosa, que havia cortado
o cabelo para que pudesse se demorar apenas cinco minutos no banho. Boa vontade
à parte, é difícil de acreditar que o cabelo de Fátima faça assim tanta
diferença em uma sociedade cujas engrenagens funcionam em escala industrial.
Tudo isso me
fez lembrar (e já explico por que) uma entrevista que li há alguns anos com o
grande antropólogo Viveiros de Castro, em que ele falava justamente da
ignorância do brasileiro em relação ao consumo de água. Subscrevo, na íntegra,
o trecho que me interessa:
“O Brasil tem a oportunidade única de ser um
dos poucos lugares da Terra onde um novo modelo de sociedade e de civilização
poderia se constituir. Somos um dos poucos países do mundo que tem recursos
suficientes para inventar outra ideia e outra prática de desenvolvimento.
Parece que aprendeu muito pouco com a história recente do mundo. Quando se
exporta soja e gado, está se exportando o quê? O solo, a água do país. Para
fazer 1 quilo de carne, são necessários 15 mil litros de água; para 1 quilo de
soja, são necessários 1.800 litros. O Brasil é o maior exportador de ‘água
virtual’ do mundo.” [1]
Juntando as
pontas entre os cabelos de Fátima Bernardes e a fala de Viveiros de Castro,
está o agronegócio, que, no Brasil, chega a consumir 70% de nossa água contra os
meros 8% do consumo residencial. [2] É oportuno dizer que Fátima é
garota-propaganda da JBS, uma das maiores empresas de processamento de carne do país, que
reúne marcas como Seara, Friboi e Swift. Além das propagandas
milionárias com Fátima, Roberto Carlos e Tony Ramos, a empresa investiu
também quantias indecentes nas campanhas eleitorais de Lula e Dilma.
Nem preciso
dizer que, por motivos ecológicos e políticos, Fátima faria melhor serviço
deixando de estimular o consumo dos produtos da JBS do que cortando suas
madeixas. Já o silêncio do governo sobre a relação entre o consumo de água e o
agronegócio provavelmente vai além de seus conchavos eleitoreiros.
Acredito que
ele se relacione, antes, com a resistência de nossos governantes àquela outra
ideia e outra prática de desenvolvimento citada por Viveiros de Castro. Em um
país que tem como único recurso de estabilidade o crescimento econômico, vincular
a crise hídrica ao empresariado é praticamente assumir o risco de um colapso.
Mas, silencioso, imagino que esse risco exista. Cresça o cabelo de Fátima ou
não.
[1] VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Antropologia renovada. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/12/antropologia-renovada/.
Acesso em: 26 jan. 2015.
[2] BRITO, Gabriel; SILVA JUNIOR,
Paulo. Crise hídrica de São Paulo passa
pelo agronegócio, desperdício e privatização da água. Disponível em: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10233:manchete101114&catid=72:imagens-rolantes.
Acesso em: 26 jan. 2015.