sábado, 31 de outubro de 2015

O assédio nosso de cada dia

Caiu no ENEM, mas muita gente ainda não sabe que, como observaria Simone de Beauvoir, ser mulher em nossa sociedade carrega uma ampla carga de significados socialmente construídos – muitos deles massacrantes.

A hashtag #primeiroassedio encorajou milhares de mulheres a quebrarem o tabu e a exporem as pequenas ou grandes humilhações a que cotidianamente somos submetidas, da infância à velhice, pelo simples fato de pertencermos ao chamado sexo frágil.

Essa fragilidade, certamente não biológica, talvez ressoe nossa vulnerabilidade frente a tantas situações de assédio que não apenas aprendemos a aceitar, mas que também desaprendemos a reconhecer. E quando digo assédio, não me refiro apenas ao sentido restrito de atentado ao pudor, mas ao ato mesmo de constranger ou de perseguir alguém.

Eu e meu marido lecionamos na mesma universidade e não é incomum que cheguemos a dar aulas nas mesmas turmas. É natural, então, que, muitas vezes, conversando sobre nossas experiências diárias em sala de aula, troquemos impressões sobre o assunto. Nós dois adoramos nosso trabalho, o que não impede que, vez ou outra, sintamo-nos desgastados por conversas paralelas, atrasos, deboches ou descaso em relação à matéria.

No entanto, logo reparo que tais desgastes são incrivelmente mais recorrentes na minha rotina. Percebo a reação dele de surpresa quando digo que fulano, tão bonzinho, me mandou um email mal-criado. Ou quando reclamo que determinada turma é barulhenta, ou ainda, que foram desagradáveis as reações às notas da prova. Nada disso, com as mesmas pessoas e nas mesmas situações, aconteceu com ele.

A primeira conclusão lógica a que chego é de que ele é um profissional melhor do que eu. No mínimo, sua disciplina é mais importante ou sua postura em sala é mais convincente. E convivo com isso. Muito tempo depois, converso com uma amiga, professora na mesma instituição, e escuto queixas bastante similares às minhas. Confabulamos se o fato não se deve a sermos jovens, com idades próximas aos dos alunos. Uma outra amiga, esta um pouco mais velha, rebate que o mesmo acontece com ela. Mais uma professora se identifica com as situações que, perplexas, descobrimos serem comuns a todas nós.

Sim, o assédio sob a forma de conversa, negligência, confronto ou sarcasmo se dá porque somos mulheres.

É impressionante como os mecanismos de dominação funcionam de forma parecida: eles nos fazem sentir responsáveis por situações desagradáveis, que, no fundo, estão além do nosso controle e, se duvidar, estão além até mesmo do controle de quem as engendra. Pensando em casos mais extremos, sabe-se que a maioria das meninas abusadas silencia-se por se sentirem culpadas. Na minha história, eu morreria me achando incompetente não fosse a identificação com outras professoras quando discutimos o assunto.


“Rogeres” da vida ridicularizarão a iniciativa de muitas mulheres em compartilhar suas experiências de assédio. Eu entendo: é duro para qualquer ser humano, especialmente para os mais simplórios, compreender que sua conduta normal pode, na verdade, ser extremamente opressiva. Mas exatamente por isso, é preciso falar. Para que possamos nos reconhecer, seja na condição de agressores ou de vítimas. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A crise hídrica e os cabelos de Fátima



O conceito de sustentabilidade sempre me pareceu contraditório, por reunir dois termos que desconfio serem irreconciliáveis: crescimento econômico e preservação ambiental. Pior do que isso, a aposta num mundo sustentável pode esvaziar o potencial crítico do discurso ecológico, mantendo, por conciliação, relações de produção e consumo que são essencialmente predatórias para o meio ambiente.
Outro ponto é que a sustentabilidade aponta antes para iniciativas individuais (individuais no sentido de que são iniciativas isoladas) do que para projetos coletivos de gestão de nossos recursos naturais, e essa distorção ganha amplitude à medida que é reforçada insistentemente pelos discursos de dois dos nossos maiores representantes na esfera pública: os políticos e a mídia.
Um exemplo é a crise hídrica. Rodízio ou racionamento, o que importa a palavra? A questão fundamental é que o governo, seja ele federal ou estadual, faz-nos crer que a falta de água se deve ao seu consumo abusivo pelo indivíduo comum. Uma crença, ao que tudo indica, compartilhada pela mídia em geral. Hoje, no programa da Fátima Bernardes, a apresentadora contou, garbosa, que havia cortado o cabelo para que pudesse se demorar apenas cinco minutos no banho. Boa vontade à parte, é difícil de acreditar que o cabelo de Fátima faça assim tanta diferença em uma sociedade cujas engrenagens funcionam em escala industrial.
Tudo isso me fez lembrar (e já explico por que) uma entrevista que li há alguns anos com o grande antropólogo Viveiros de Castro, em que ele falava justamente da ignorância do brasileiro em relação ao consumo de água. Subscrevo, na íntegra, o trecho que me interessa:
“O Brasil tem a oportunidade única de ser um dos poucos lugares da Terra onde um novo modelo de sociedade e de civilização poderia se constituir. Somos um dos poucos países do mundo que tem recursos suficientes para inventar outra ideia e outra prática de desenvolvimento. Parece que aprendeu muito pouco com a história recente do mundo. Quando se exporta soja e gado, está se exportando o quê? O solo, a água do país. Para fazer 1 quilo de carne, são necessários 15 mil litros de água; para 1 quilo de soja, são necessários 1.800 litros. O Brasil é o maior exportador de ‘água virtual’ do mundo.” [1]
Juntando as pontas entre os cabelos de Fátima Bernardes e a fala de Viveiros de Castro, está o agronegócio, que, no Brasil, chega a consumir 70% de nossa água contra os meros 8% do consumo residencial. [2] É oportuno dizer que Fátima é garota-propaganda da JBS, uma das maiores empresas de processamento de carne do país, que reúne marcas como Seara, Friboi e Swift. Além das propagandas milionárias com Fátima, Roberto Carlos e Tony Ramos, a empresa investiu também quantias indecentes nas campanhas eleitorais de Lula e Dilma.
Nem preciso dizer que, por motivos ecológicos e políticos, Fátima faria melhor serviço deixando de estimular o consumo dos produtos da JBS do que cortando suas madeixas. Já o silêncio do governo sobre a relação entre o consumo de água e o agronegócio provavelmente vai além de seus conchavos eleitoreiros.
Acredito que ele se relacione, antes, com a resistência de nossos governantes àquela outra ideia e outra prática de desenvolvimento citada por Viveiros de Castro. Em um país que tem como único recurso de estabilidade o crescimento econômico, vincular a crise hídrica ao empresariado é praticamente assumir o risco de um colapso. Mas, silencioso, imagino que esse risco exista. Cresça o cabelo de Fátima ou não.

[1] VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Antropologia renovada. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/12/antropologia-renovada/. Acesso em: 26 jan. 2015.
[2] BRITO, Gabriel; SILVA JUNIOR, Paulo. Crise hídrica de São Paulo passa pelo agronegócio, desperdício e privatização da água. Disponível em: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10233:manchete101114&catid=72:imagens-rolantes. Acesso em: 26 jan. 2015.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Ser ou não ser Charlie, eis a questão


 Desde setembro de 2001, o terrorismo passou a repercutir fortemente no imaginário do mundo ocidental, apavorando-nos, por se tratar de um mecanismo de pressão política que não passa, de forma alguma, pelo diálogo. A disposição dos terroristas em abdicar da própria vida em nome de uma causa maior tira-nos o poder de barganha e dá-nos aquela sensação de xeque-mate no plano político.
Como diria a psicanálise, a violência representa o esgotamento do diálogo, a passagem do simbólico ao ato. Ela se dá quando as palavras já não suficientes para representar o que sentimos ou pensamos. E é claro que, como filhos do Esclarecimento, nada pode nos parecer pior do que o recurso à violência e a cessação do debate. Talvez seja por isso que a luta por liberdade de expressão vem-se tornando cada dia mais relevante em nossa sociedade.
O brutal assassinato dos cartunistas do Charlie Hebdo condensou tal questão, quando milhares – e não apenas franceses – foram às ruas e às redes bradar por essa liberdade, com canetas em punho ou hashtags “em riste”, dizendo “je suis charlie”. Jornalistas não cansam de glorificar os homens que “morreram de pé e não viveram de joelhos”. Já os humoristas conclamam para si a espinhosa tarefa de subverter pelo riso. E, ao que parece, todos concordam que a liberdade de expressão deva ser absoluta e irrestrita.
A minha dúvida é se essa liberdade sem limites pode, de fato, favorecer o diálogo, complexificar nossa relação com o mundo, ou, pelo contrário, colocar em preto e branco questões com matizes variados, afinal jogar com limites é uma das mais belas e árduas tarefas da democracia, e definir em que medida a liberdade de expressão pode comprometer outros direitos faz parte deste jogo.
Em tempos de internet, essa é, para mim, uma das reflexões mais fundamentais a serem empreendidas. Há algum tempo, tem-me incomodado a busca por transparência total, esse prazer em toda e qualquer denúncia, como se exercêssemos cidadania pelo simples de fato de podermos nos expressar por meio de smartphones. É que eu sempre acho que a liberdade de expressão, nem por um segundo, habilite-nos a empreender um diálogo. Até porque, muitas vezes, a reivindicação por dizer o que se quer, não raro, aponta antes para um desejo individualista da ordem do consumo do que para uma empreitada coletiva da ordem da cidadania.
Na minha opinião, algumas das charges do Charlie Hebdo representavam essa luta por apenas dizer, como se só isso pudesse nos garantir um mundo melhor. Minha cabeça dá voltas tentando entender qual debate político interessante poderia ser suscitado ao se chamar o Corão de merda ou ao se fazer troça com o profeta Maomé. Para além disso, é ingênuo acreditar que qualquer meio de comunicação, por mais irreverente que seja, não tenha sua expressão cerceada por limites que, muitas vezes, são até mesmo autoimpostos.
Não acho, de modo algum, que os cartunistas “tiveram o que mereceram”, não só porque ninguém merece um fim destes, mas porque a violência é consequência de uma limitação dos assassinos e não dos assassinados. A violência suspende, ainda, o direito à dignidade, este sim, o único direito que deve ser absoluto e irrestrito. Todavia, é preciso cautela para não assumirmos um discurso que corre fácil pela mídia e vincula a condenação óbvia do terrorismo à liberdade total de expressão. É preciso perguntarmo-no se sermos Charlie significa aceitarmos que ao humor todo poder de enunciação é concedido.