domingo, 19 de março de 2017

Inimigo público



Sabe o ódio que as pessoas têm do PT ou do PSDB, do Bolsonaro ou do Jean Wyllys, dos paneleiros ou dos black blocks? Então, eu sinto um ódio destes pelo agronegócio. Para mim, não há pessoa, partido, grupo ou instituição mais danoso ao Brasil do que a bancada ruralista. É ela que, atravessando – sem trégua – todos os governos, constitui as oligarquias mais podres, defende os interesses mais escusos, sustenta os lobbies mais asquerosos.

Nossa economia, há muito, depende de um negócio pouco sustentável, em muitos sentidos. A pecuária, como já observara Viveiros de Castro, gasta (e sem onerar as empresas) um dos recursos mais valiosos que temos, que é a nossa água potável. Desperdiça-se um volume indecente de água na produção de carne: 15 mil litros de água por quilo produzido. Faz agora as contas. Como diria ele, somos “o maior exportador de água virtual do mundo”.

Essa mesma atividade degrada também o solo e as nascentes, oprime grupos indígenas e impede a produção familiar, da mesma maneira que o fazem as monoculturas e seus latifundiários, empurrando-nos ainda comida com uma taxa de agrotóxico proibida na maior parte do mundo.

Para além de todos esses problemas, o agronegócio mama frequentemente nas tetas do governo, o que me faz questionar sobre a sustentabilidade também financeira do setor. Em janeiro deste ano, já foram destinados 12 bilhões de reais como pré-custeio aos produtores rurais.

E olha que ainda nem entrei no mérito de que esta é uma das indústrias mais cruéis que existem, tanto em relação a homens como a animais. As técnicas de produção torturam desnecessariamente bilhões de bois, vacas, porcos e aves que sentem as mesmas emoções básicas que nós. Se você acha que o único dilema ético que existe em comer carne está na morte dos animais, é porque não faz ideia da vida que levam do nascimento ao abate. Curiosamente, os frigoríficos oferecerem a seus funcionários as piores condições de trabalho de todo o país. Coincidência? Acho que não.

O episódio da carne podre da Friboi é só a ponta do iceberg, em uma indústria que desconhece qualquer limite ético e não tem nenhuma reverência pela vida. Garanto a vocês: encontrar um pelo do Toni Ramos no bife é bem menos nojento do que a maioria das práticas que a nossa bancada ruralista vem perpetuando ao longo de toda a nossa história. Mas nós engolimos – o bife e as práticas –, com a ajuda de uma mídia que, nos intervalos comerciais, repete como um mantra: “Agro é pop, agro é tech, agro é tudo”.