sábado, 22 de novembro de 2014

O botão do poder


Ao sair o resultado das eleições presidenciais, escutei amargurada de um amigo: “Agora os eleitores da Dilma são responsáveis por tudo o que acontecer nos próximos quatro anos”. Amargurada, porque pressentia que aquele comentário não seria isolado, mas faria parte de um quadro generalizado de incompreensão do que é o jogo político, e de como funciona a democracia representativa em todas as suas esferas.

É claro que toda escolha implica um risco, e o voto no PT, principalmente depois de todos os escândalos de corrupção, traz ao eleitor sua carga de responsabilidade, mas é importante levar em consideração dois pontos. O primeiro, de que nem todos os riscos numa democracia decorrem da escolha nas eleições. O segundo, de que esta escolha é bastante restrita, daí a importância do primeiro ponto. Em suma, transferimos àqueles que elegemos como nossos representantes uma grande margem de nosso poder decisório, mas não a tarefa de ser cidadão. Esta, que consiste na prática diária da convivência, do debate e também, claro, da supervisão dos candidatos eleitos.

Acho que é por gostarmos de narrativas salvacionistas que esperamos, algum dia, sermos resgatados ao apertar o botão certo de quatro em quatro anos. O problema é que, mesmo que houvesse um salvador, ele não poderia agir, simultaneamente, nos poderes executivo, legislativo e judiciário, nem nas esferas federal, estadual e municipal. Felizmente, a democracia não o permitiria.

Às vezes, tenho a impressão de que o anti-petismo, seja dos black blocs, seja dos eleitores do Aécio, gerou uma zona de conforto político do tipo “eu não tenho nada a ver com isso”. É curioso assistir ao prazer quase sádico dos “eu disse” em relação às trapalhadas da “presidenta”, como se nós também já não o disséssemos antes! No final, o posicionamento político que não admite negociação e produz apenas crítica corre o maior dos riscos numa democracia: o de estar sempre certo.