“Nós
moldamos nossas ferramentas e nossas ferramentas nos moldam.” Com
esta célebre frase de Marshal McLuhan, o ativista digital Eli
Parisier abre seu livro O filtro invisível. A obra de
Parisier tenta, basicamente, entender onde foi parar a promessa de
democratização da informação que a
internet tão portentosamente ostentava.
O filtro
invisível de que fala Parisier são os algoritmos a que
chegam sites como Google ou Facebook para que nossa
navegação seja personalizada. Ou seja, a partir de
nosso histórico de pesquisa, as informações que
nos são apresentadas tendem a afinar-se com as ideias que já
temos.
É
claro que, em meio ao turbilhão de dados disponíveis na
rede, é bastante tentador um mecanismo que calcule aquilo que
escolheríamos. O presidente da Google, Eric Schmidt, afirmou,
por exemplo, que sempre quis projetar um código que
adivinhasse o que ele fosse escrever, como conta Parisier.
Mas a
democracia não é um cálculo. Ela é o
debate miúdo, constante e nada previsível de inúmeros
aspectos que tocam nossa vida, e esse debate só é
possível com a perspectiva da pluralidade.
As
eleições de 2014, no Brasil, ficaram marcadas por uma
polarização sem precedentes. O grau de agressividade
entre os eleitores de Dilma e Aécio gerou um debate à
parte e uma pergunta em particular: em que medida as redes sociais
contribuíram para a profunda simplificação das
questões políticas implicadas no processo eleitoral,
gerando máximas como “quem vota em Aécio é
burro” ou “quem vota em Dilma é ladrão”?
Se
Parisier estiver certo, nossa linha do tempo no Facebook dará
maior visibilidade aos comentários daqueles que votam no mesmo
candidato que nós, criando, no usuário, uma certa
sensação de “infalibilidade”. E a verdade é
que nada é mais confortável do que o consenso, só
colo de mãe.
Os
filtros invisíveis criam “muros” para nos apartar de
pensamentos diferentes, mas, se eles falharem, a internet dispõe
de outros mecanismos para nos proteger da árdua tarefa de
pensar o outro. Como nos lembra Zygmund Bauman, no auge de seus quase
90 anos, o maior atrativo da rede não é a possibilidade de nos conectarmos a nossos amigos, mas a facilidade de nos
desconectarmos de quem nos aborrece.