sábado, 25 de outubro de 2014

O inferno são os outros

Nós moldamos nossas ferramentas e nossas ferramentas nos moldam.” Com esta célebre frase de Marshal McLuhan, o ativista digital Eli Parisier abre seu livro O filtro invisível. A obra de Parisier tenta, basicamente, entender onde foi parar a promessa de democratização da informação que a internet tão portentosamente ostentava.
O filtro invisível de que fala Parisier são os algoritmos a que chegam sites como Google ou Facebook para que nossa navegação seja personalizada. Ou seja, a partir de nosso histórico de pesquisa, as informações que nos são apresentadas tendem a afinar-se com as ideias que já temos.
É claro que, em meio ao turbilhão de dados disponíveis na rede, é bastante tentador um mecanismo que calcule aquilo que escolheríamos. O presidente da Google, Eric Schmidt, afirmou, por exemplo, que sempre quis projetar um código que adivinhasse o que ele fosse escrever, como conta Parisier.
Mas a democracia não é um cálculo. Ela é o debate miúdo, constante e nada previsível de inúmeros aspectos que tocam nossa vida, e esse debate só é possível com a perspectiva da pluralidade.
As eleições de 2014, no Brasil, ficaram marcadas por uma polarização sem precedentes. O grau de agressividade entre os eleitores de Dilma e Aécio gerou um debate à parte e uma pergunta em particular: em que medida as redes sociais contribuíram para a profunda simplificação das questões políticas implicadas no processo eleitoral, gerando máximas como “quem vota em Aécio é burro” ou “quem vota em Dilma é ladrão”?
Se Parisier estiver certo, nossa linha do tempo no Facebook dará maior visibilidade aos comentários daqueles que votam no mesmo candidato que nós, criando, no usuário, uma certa sensação de “infalibilidade”. E a verdade é que nada é mais confortável do que o consenso, só colo de mãe.
Os filtros invisíveis criam “muros” para nos apartar de pensamentos diferentes, mas, se eles falharem, a internet dispõe de outros mecanismos para nos proteger da árdua tarefa de pensar o outro. Como nos lembra Zygmund Bauman, no auge de seus quase 90 anos, o maior atrativo da rede não é a possibilidade de nos conectarmos a nossos amigos, mas a facilidade de nos desconectarmos de quem nos aborrece.