Ao sair o resultado das eleições presidenciais, escutei amargurada de um amigo: “Agora os eleitores da Dilma são responsáveis por tudo o que acontecer nos próximos quatro anos”. Amargurada, porque pressentia que aquele comentário não seria isolado, mas faria parte de um quadro generalizado de incompreensão do que é o jogo político, e de como funciona a democracia representativa em todas as suas esferas.
É claro que toda escolha implica um risco, e o voto no PT,
principalmente depois de todos os escândalos de corrupção,
traz ao eleitor sua carga de responsabilidade, mas é
importante levar em consideração dois pontos. O
primeiro, de que nem todos os riscos numa democracia decorrem da
escolha nas eleições. O segundo, de que esta escolha é
bastante restrita, daí a importância do primeiro ponto.
Em suma, transferimos àqueles que elegemos como nossos
representantes uma grande margem de nosso poder decisório, mas
não a tarefa de ser cidadão. Esta, que consiste na
prática diária da convivência, do debate e
também, claro, da supervisão dos candidatos eleitos.
Acho que é por gostarmos de narrativas salvacionistas que
esperamos, algum dia, sermos resgatados ao apertar o botão
certo de quatro em quatro anos. O problema é que, mesmo que
houvesse um salvador, ele não poderia agir, simultaneamente,
nos poderes executivo, legislativo e judiciário, nem nas
esferas federal, estadual e municipal. Felizmente, a democracia não
o permitiria.
Às vezes, tenho a impressão de que o anti-petismo, seja
dos black blocs, seja dos eleitores do Aécio, gerou uma zona
de conforto político do tipo “eu não tenho nada a ver
com isso”. É curioso assistir ao prazer quase sádico
dos “eu disse” em relação às trapalhadas da
“presidenta”, como se nós também já não
o disséssemos antes! No final, o posicionamento político
que não admite negociação e produz apenas
crítica corre o maior dos riscos numa democracia: o de estar
sempre certo.
